O modelo de negócio do entretenimento mudou do tamanho da audiência para a profundidade do pertencimento

Diretora de Comunicação e Marketing da Endemol Shine Brasil
Diretora de Comunicação e Marketing

Há algumas semanas, folheando conversas que tive ao longo dos anos com executivos de entretenimento, percebi uma frase que se repetia, de formas diferentes, em quase todas elas: “preciso aumentar minha audiência.”

Nunca: “preciso aprofundar minha audiência.”

Essa distinção parece simples, mas diz muito sobre como o mercado ainda pensa. E foi exatamente essa tensão que começou a me incomodar de verdade. Porque, quando olho para os projetos que realmente duram, a lógica é outra.

O que fica claro, quando você para para observar, é que estamos diante de uma virada que não é apenas de comportamento de consumo. É uma virada na forma como o valor é gerado dentro da indústria.

Durante muito tempo, o modelo foi construído sobre distribuição. Quanto maior o alcance, maior o poder. Mas o alcance, por si só, nunca gerou pertencimento. E é o pertencimento — não a audiência — que sustenta um negócio ao longo do tempo.

Comecei a enxergar isso com mais nitidez quando passei a observar o que diferencia os projetos que duram daqueles que explodem e somem. Os que duram raramente são os que chegaram primeiro ou os que tiveram o maior orçamento de mídia. São os que conseguiram fazer com que as pessoas sentissem que faziam parte de algo, e que voltassem por vontade própria.

Esse movimento não é novo para quem trabalha com entretenimento há anos. Mas chegou a um ponto de maturidade em que precisa ser tratado como estratégia, não como consequência natural de um bom produto.

Hoje, os projetos mais relevantes da indústria são construídos com uma lógica que se aproxima da de um showrunner: há uma narrativa central, formatos que se repetem e evoluem, rituais que o público reconhece e antecipa, e espaços — digitais e físicos — onde a comunidade existe para além do momento da exibição. Cada plataforma cumpre um papel dentro de um ecossistema maior, e o público não é apenas destinatário desse conteúdo. Ele é parte constitutiva dele.

É uma mudança de mentalidade profunda. Sair da lógica do produto — que se esgota após a entrega — e entrar na lógica da plataforma de experiência, que se retroalimenta com o tempo.

E o que mais me chama a atenção nessa transição é que ela altera a pergunta central do negócio. Por muito tempo, o mercado se organizou em torno de uma métrica: quantas pessoas assistiram? Era uma pergunta legítima quando o modelo dependia de publicidade por volume, de bilheteria por sessão, de audiência por episódio.

Mas essa questão não captura o que realmente sustenta um projeto ao longo do tempo. Não mede o quanto as pessoas se identificam com aquele universo. Não mede o quanto elas voltam, recomendam, defendem, constroem identidade a partir dali.

A pergunta que começa a reorganizar o setor é outra: quantas pessoas querem fazer parte?

Não é algo  sobre alcance. É sobre relevância. Sobre o espaço simbólico que um projeto ocupa na vida das pessoas. E é justamente nesse espaço — entre conteúdo, experiência e comunidade — que os modelos de negócio do entretenimento estão sendo reescritos.

Para marcas, produtoras e criadores, a oportunidade está em começar a projetar dessa forma desde o início. Não como produto que será lançado, mas como universo que será habitado.

Porque a audiência que apenas assiste pode ir embora na próxima semana. A comunidade que sente que pertence tende a ficar — e a trazer outras pessoas junto.

Artigo publicado em Mundo do Marketing.

‘Luminiscence’ ganhará novas apresentações após atrair 75 mil pessoas à Catedral da Sé

O espetáculo imersivo “Luminiscence” ganhará novas apresentações na Catedral da Sé e seguirá em cartaz até 5 de julho, na capital paulista. Desde a estreia, em janeiro, ele atraiu mais 75 mil pessoas, segundo a organização.

Interior de catedral com iluminação azul projetada nas colunas e teto, formando padrão de teia de aranha. Público observa espetáculo de luzes no ambiente escuro.

O evento ocupa o interior da igreja neogótica com imagens tridimensionais que dialogam com a arquitetura do espaço, com projeções mapeadas, trilha sonora e performances ao vivo. O projeto já passou por catedrais e basílicas de países como França, Alemanha, Bélgica, Espanha e Estados Unidos, onde alcançou mais de um milhão de espectadores.

O espetáculo estreou em São Paulo em janeiro, com sessões de quinta a domingo. Há versões com orquestra e coro ao vivo, apenas coro e também apresentações com trilha gravada.

A produção brasileira é liderada pela Endemol Shine Brasil, responsável por realities como “Big Brother Brasil” e “MasterChef Brasil”, e que vem ampliando sua atuação na área de entretenimento ao vivo e experiências imersivas.

“Com o ‘Luminiscence’ pudemos nos conectar com o público e criar momentos memoráveis para ele. O sucesso da temporada consolida nossa atuação em entretenimento 360°, para além das telas, proporcionando experiências presenciais impactantes”, afirma Nani Freitas, CEO da produtora.

Matéria publicada na Folha de São Paulo.

NANI FREITAS: “O FORMATO VERTICAL NÃO É UMA ADAPTAÇÃO DA TELENOVELA TRADICIONAL, É UMA NOVA LINGUAGEM”

CEO da Endemol Shine Brasil reflete sobre a demanda e o crescimento de conteúdo vertical no país, afirmando que a construção sólida de sua narrativa é o que garantirá a evolução do formato.

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Há pouco mais de um mês, duas produtoras brasileiras que fazem parte do grupo Banijay Americas uniram forças para criar microdramas em formato vertical, voltados especificamente para o ecossistema mobile, plataformas digitais e projetos de marca. A Señal News conversou com Nani Freitas, CEO da Endemol Shine Brasil , que detalhou a aliança com a A Fábrica e definiu a estratégia de produção de conteúdo e construção narrativa para o formato vertical .

Após o acordo entre a Endemol Shine Brasil e a A Fábrica para a produção de microdramas verticais, qual estratégia será implementada para esse desenvolvimento?
– “Nossa estratégia consiste em estruturar uma produção contínua e escalável de microdramas verticais, concebida para o consumo em dispositivos móveis. A proposta é desenvolver séries nativas para telas verticais, com linguagem e ritmo próprios, em colaboração com as principais plataformas e marcas. Nosso objetivo é combinar a agilidade do modelo de produção com a qualidade narrativa para oferecer histórias curtas, dinâmicas e seriadas que se conectem aos novos hábitos de consumo.”

Qual será a contribuição de cada parte neste acordo?
– “A aliança foi concebida de forma complementar: a Endemol Shine Brasil assume a produção executiva dos projetos e lidera as negociações com marcas e plataformas, contribuindo com seu conhecimento de mercado, escalabilidade e experiência em entretenimento multiplataforma. A Fábrica fica responsável pela criação e desenvolvimento dos roteiros de ficção, aplicando sua experiência em dramaturgia para garantir histórias bem construídas e relevantes para este novo formato.”

Como você analisa a demanda e o crescimento do conteúdo vertical no Brasil?
– “A ascensão do conteúdo vertical no Brasil reflete diretamente um mercado com consumo cada vez mais focado em dispositivos móveis. O público busca histórias dinâmicas, envolventes e fáceis de acompanhar, que retratem o cotidiano. Essa tendência já está sendo abraçada pelos principais veículos e plataformas de mídia, reforçando o fato de que o investimento em microdramas é uma tendência crescente no consumo audiovisual do país.”

Como a experiência da Endemol Shine Brasil com a TeleKwai e conteúdo de marca contribui para fortalecer a nova proposta?
– “A experiência anterior com microdramas para a TeleKwai foi fundamental para a compreensão da lógica de produção, distribuição e participação no formato vertical. Além disso, o desempenho consistente da Endemol Shine Brasil em conteúdo de marca proporcionou importantes lições sobre a integração orgânica de marcas em narrativas sem comprometer o entretenimento. Esse repertório fortalece a aliança com A Fábrica, combinando dramaturgia com projetos viáveis ​​e atraentes para o mercado publicitário.”

Quais são os principais aspectos para que a dramaturgia vertical adquira uma linguagem própria?
– “O fundamental é respeitar que o formato vertical não é uma adaptação da telenovela tradicional, mas sim uma nova linguagem. Isso implica episódios mais curtos, narrativas diretas, personagens com os quais o público se identifica e conflitos claros desde o início. Também é essencial considerar o ritmo, o enquadramento e o desenvolvimento da história para que faça sentido para quem a consome em seus celulares, muitas vezes em momentos fragmentados do dia. Além disso, definir as premissas que sustentam os orçamentos e os cronogramas de filmagem, como a quantidade e o tipo de locações e o número de dias de filmagem, é fundamental. A construção sólida da narrativa é o que garante que o formato evolua de uma tendência para um pilar consistente de conteúdo.”

Entrevista publicada em SeñalNews.